Por Harrison Silva, Consultor de Soluções Corporativas na Softdata
Dez da manhã na linha de montagem. Na prateleira ao lado do posto há caixas com cartão, e ninguém lê o cartão: o abastecedor passa às sete, às onze e às três e completa o que vê vazio. No chão está o palete da ordem de ontem, que veio inteiro por requisição e não voltou. Pelo rádio, o líder pede a peça da próxima ordem, de um modelo que a linha não fazia no mês passado.
O procedimento diz kanban. A linha roda três modelos de abastecimento ao mesmo tempo, e nenhum deles é o do procedimento. A pergunta que resolve isso não é qual modelo é melhor. É que fábrica é esta, hoje.
Modelo de abastecimento desalinhado é a regra de abastecimento de linha desenhada para um tipo de produção que a fábrica já não tem. Acontece quando a fábrica muda o que produz ou como vende, e a regra continua a mesma. O efeito visível é material sobrando de uma ordem e faltando para a próxima. A consequência é espaço, horas e capital parados na linha.
Como saber se o abastecimento de linha não combina mais com a produção da fábrica?
Os sinais aparecem junto à linha, não no almoxarifado: material de ordens encerradas ao lado da falta do que a próxima ordem vai usar, sinal de reposição que ninguém respeita, pedidos paralelos por rádio e kits abertos para completar na hora. Cada um indica que o modelo oficial deixou de ser o modelo real.
Para ler esses sinais, os modelos precisam ser definidos pelo que dispara a entrega, não pelo nome que está no procedimento. No kanban de abastecimento, o gatilho é o consumo: um contenedor esvazia e é reposto em quantidade fixa, sem relação com a ordem que está rodando. É o kanban de movimentação, não o cartão que autoriza produzir.
No kitting, o gatilho é o programa: as peças exatas de uma unidade ou de um posto chegam juntas, na sequência de montagem. Na requisição, o gatilho é o pedido ou a liberação da ordem de produção, e chega a quantidade da ordem, item a item, sem apresentação por posto.
Há um quarto gatilho, que nenhum procedimento registra: o pedido informal, o sintoma mais confiável de que o modelo oficial não serve. A edição sobre linha parada tratou do material que existe na planta e não chega ao ponto de uso. Aqui a pergunta vem antes: qual regra decide que ele deveria chegar.
Por que a fábrica acaba rodando um modelo de abastecimento que não serve mais?
Porque o modelo foi escolhido para outra fábrica: a mesma, quando era menor, tinha menos produtos ou produzia para estoque, ou outra planta, copiada sem as condições que faziam o modelo funcionar. O produto mudou, e o abastecimento ficou onde estava.
Robert Hayes e Steven Wheelwright, na Harvard Business Review de 1979, propuseram ler cada fábrica pela combinação entre a estrutura do produto e o processo que o produz. Quando o mix cresce e as ordens deixam de se repetir, a fábrica muda de lugar nessa combinação. O abastecimento quase nunca acompanha.
Antonio Caputo, Pacifico Pelagagge e Paolo Salini, no Industrial Management & Data Systems de 2015, registram que essa escolha costuma ser feita por julgamento e pela tradição da empresa, embora afete diretamente o desempenho da montagem.
A cópia tem um problema próprio. O kanban nasceu na montagem repetitiva da Toyota, descrita por Sugimori e coautores no International Journal of Production Research em 1977, e Huang e Kusiak, em revisão de 1996, registram que ele não serve à produção não repetitiva. Uma dissertação de 2007 da UFSCar, de Muris Lage Junior, encontrou em empresas paulistas adaptações do kanban que mantinham o nome, abandonavam a lógica original e perdiam parte das vantagens do sistema.
Na edição sobre apontamento de consumo, requisição era forma de baixa. Aqui, é modelo de entrega.
Quase toda a literatura citada é internacional e de montagem automotiva. O mecanismo não depende do país, e não há levantamento público brasileiro sobre os modelos de abastecimento que as indústrias usam.
Quanto custa abastecer a linha com um modelo que não serve ao tipo de produção?
Cada desencontro tem um custo próprio, e nenhum aparece com o próprio nome. Aparece como falta de espaço junto à linha, horas de separação desnecessárias, material parado de ordem encerrada e pedidos paralelos que consomem uma mão de obra que ninguém planejou.
Kanban em produção sob encomenda enche a linha de contenedores que não giram, e os itens novos, sem cartão, chegam por pedido informal. Requisição em produção repetitiva leva a ordem inteira para o posto, e a sobra que volta sem registro reaparece mais tarde como divergência de saldo. Kitting em produção repetitiva de alto volume paga separação peça a peça para entregar o que um contenedor fixo entregaria.
No abastecimento contínuo, o item usado em vários postos precisa estar em cada um deles, mecanismo descrito por Caputo, Pelagagge e Salini. A falta de espaço que resulta disso costuma ser lida como problema de layout.
Yavuz Bozer e Leon McGinnis mostraram, no International Journal of Production Economics de 1992, que os trade-offs de movimentação, espaço e material em processo entre kitting e estoque na linha são calculáveis antes da decisão. Raramente são calculados depois dela.
Como identificar o tipo de produção da fábrica e o modelo de abastecimento que ela de fato roda?
Com dois passos de classificação. A lista de ordens dos últimos meses diz que fábrica você tem, e uma volta pela linha diz o que ela realmente faz para se abastecer. O diagnóstico está na comparação entre os dois resultados e o procedimento escrito.
Primeiro passo: que fábrica é esta, por linha ou por família de produto, nunca para a fábrica inteira. Com as ordens de produção dos últimos três meses, verifique se os mesmos produtos se repetem semana após semana, se a ordem nasce antes ou depois do pedido do cliente e se a linha consome peças contadas ou material a granel, medido em peso ou volume.
O resultado é um de quatro tipos: repetitiva, sob encomenda, mista ou de processo. Não há faixa numérica publicada que separe um tipo do outro, e não vale inventar uma.
Segundo passo: a pergunta do contenedor. Para cada caixa, palete ou contenedor junto aos postos, anote o que o trouxe até ali: cartão ou contenedor vazio, kit da ordem, requisição formal, pedido informal, iniciativa do abastecedor ou sobra de ordem encerrada. Anota-se a origem, não a quantidade, e é isso que separa este teste das contagens já publicadas na série.
A leitura tem três desfechos. Se o modelo declarado é o que roda e serve ao tipo de produção, falta só escrever o que já existe. Se declarado e rodado divergem, o procedimento é ficção, e o rodado pode até ser o certo. Se o rodado não serve ao tipo de produção, o modelo precisa ser redesenhado.
Kanban, kitting ou requisição: qual modelo serve a cada tipo de produção?
Nenhum serve à fábrica inteira. Produção repetitiva tende a pedir gatilho de consumo, produção sob encomenda tende a pedir gatilho de programa, e a mista pede os dois, decididos por família. A indústria de processo não usa nenhum dos três como descrito, mas reaproveita a lógica de dois deles.
| Tipo de produção | O que dispara a entrega que tende a servir | Modelo que tende a servir | Sinal de que o modelo atual não serve | O que o modelo errado deixa junto à linha |
|---|---|---|---|---|
| Repetitiva | Consumo | Kanban de abastecimento: supermercado ou duas caixas | Kits montados para itens que se repetem toda semana; requisição da quantidade da ordem inteira | Horas de separação sem necessidade; paletes de ordem parados no posto |
| Sob encomenda | Programa | Kitting por ordem ou por posto | Cartões de itens que não giram; pedido informal para itens novos | Contenedores parados; falta do item que não tem cartão |
| Mista | Consumo nas famílias que se repetem, programa nas demais | Combinação decidida por família | Um único modelo para a fábrica inteira | Os dois problemas acima, em postos diferentes |
| Processo (material a granel) | Nível do silo ou receita da batelada | Nenhum dos três como descrito: reposição por nível e pesagem pela receita | Carga de máquina tratada como requisição de almoxarifado | Embalagem aberta ao lado do equipamento entre uma ordem e outra |
Na indústria de processo, como moagem, extrusão e espumação, o material chega a granel e o abastecimento é carga de máquina. Ainda assim, a lógica de dois modelos reaparece: o nível mínimo do silo faz o papel do sinal de consumo, e a pesagem da batelada pela receita faz o papel do kit da ordem.
A conclusão ecoa a da edição sobre endereçamento, mas com outro objeto: lá se decidiu onde o material fica; aqui, como e quando ele chega à linha. Caputo, Pelagagge e Salini chegam ao mesmo ponto: uma combinação de políticas por item pode superar uma política única para todas as peças.
Os caminhos seguem a ordem de custo.
Processo. Declare um gatilho por família, formalize ou elimine o pedido informal e defina o destino da sobra antes que ela vire estoque de linha. Dimensione o contenedor de kanban pelo consumo e pelo tempo de reposição, não pela embalagem do fornecedor.
Layout. Supermercado ou ponto de uso para as famílias repetitivas, área de kit perto do almoxarifado para as sob encomenda, ponto de carga junto ao equipamento para o processo. Huseyin Kilic e Mehmet Durmusoglu, na Assembly Automation de 2015, dividem o abastecimento em armazenagem, transporte e política. Trocar só a política não reproduz o resultado.
Gente. Nomeie um dono do modelo de abastecimento. Uma divisão defensável: o PCP (Planejamento e Controle da Produção) define o gatilho de cada família, e o almoxarifado executa. A revisão é disparada pela mudança de mix, não pelo calendário.
Sistema, só depois dos três anteriores. Um WMS (Warehouse Management System, ou sistema de gestão de armazém) pode gerar o kit a partir da ordem, disparar a reposição por sinal registrado e tratar a ida para a linha como movimentação com endereço de destino. Onde termina o que o ERP (Enterprise Resource Planning, ou sistema de gestão empresarial) registra está na edição sobre ERP e WMS.
O que isso significa para a diretoria
Antes de aprovar mais gente no almoxarifado, área para supermercado, um projeto de kanban ou mais espaço junto à linha, vale pedir o resultado da classificação em dois passos. Ela separa três custos que hoje chegam misturados: capital parado em material de ordem encerrada, horas de separação ou de abastecimento informal, e espaço de linha ocupado por itens que não giram.
A classificação também mostra se o problema é o modelo errado ou a falta de um modelo escrito, e as duas coisas pedem orçamentos muito diferentes. Ela custa a lista de ordens dos últimos três meses e uma volta pela linha.
Perguntas frequentes
O kanban de abastecimento é o mesmo kanban da produção?
Não. O kanban de produção autoriza um processo a fabricar. O kanban de abastecimento, também chamado de kanban de movimentação ou de retirada, autoriza a reposição de material de um estoque para o ponto de uso. Uma fábrica pode abastecer a linha por kanban e programar a produção por ordens, sem contradição entre as duas coisas.
Sistema de duas caixas é kanban?
É a forma mais simples de kanban de abastecimento: a caixa vazia é o sinal, e a cheia sustenta o consumo enquanto a reposição chega. Funciona quando a quantidade de cada caixa foi dimensionada pelo consumo e pelo tempo de reposição. Quando a caixa é a embalagem do fornecedor, o sinal existe, mas a quantidade é acaso.
Kitting só funciona com sistema?
Não. Um kit pode ser montado a partir da lista de materiais impressa da ordem. O sistema passa a fazer diferença quando o número de kits por turno cresce, quando ordens parecidas têm estruturas diferentes ou quando é preciso registrar o lote de cada componente que foi para o kit.
Supermercado de linha é a mesma coisa que almoxarifado avançado?
Não necessariamente. Almoxarifado avançado costuma ser um estoque descentralizado que repete o modelo de entrega do central. Supermercado é um estoque intermediário com posição fixa por item e quantidade máxima definida, de onde a linha é reposta por sinal de consumo. A diferença está no gatilho, não na distância.
Se a sua linha recebe material por cartão, por ordem e por pedido de rádio ao mesmo tempo, vale identificar qual modelo de abastecimento a operação de fato roda e se ele ainda serve à produção que ela tem. Me chame no WhatsApp e a gente faz essa classificação junto. São 30 minutos, e ela serve inclusive para concluir que o modelo atual está certo e só falta escrevê-lo.
— Harrison Silva, Consultor de Soluções Corporativas na Softdata
Harrison Silva é Consultor de Soluções Corporativas na Softdata Hub de Tecnologia, onde acompanha projetos de gestão de armazém e estoque em indústrias e distribuidores de médio porte, em setores como plásticos, moveleiro, alimentos e metalmecânica.