Endereçamento fixo ou dinâmico no almoxarifado industrial: por que copiar o e-commerce dá errado

Por Harrison Silva, Consultor de Soluções Corporativas na Softdata

Chegaram seis paletes de resina. As posições marcadas para resina ainda guardam o lote anterior, e os paletes vão para o corredor, “só até amanhã”. Duas ruas adiante, oito posições estão vazias, reservadas para itens zerados há semanas.

O armazém tem espaço e não tem lugar. Na reunião de sexta, alguém vai pedir um galpão novo. A discussão vai girar em torno de metros quadrados, quando deveria girar em torno de uma regra.

Endereçamento fixo reserva uma posição para cada item. Endereçamento dinâmico guarda cada unidade na posição livre que atende às regras do momento. No almoxarifado industrial, a escolha entre os dois é decisão de projeto, tomada por categoria de material. Quando a regra é copiada de outra operação, o armazém passa a ter palete sem lugar e lugar sem palete ao mesmo tempo.

Quais são os sinais de que o endereçamento não serve à operação da fábrica?

O sinal mais claro de endereçamento inadequado no almoxarifado industrial é a convivência de dois excessos: paletes fora de posição (no corredor, na doca, em área provisória) e posições vazias que ninguém pode ocupar. Quando os dois aparecem no mesmo dia, o armazém não está cheio. A regra de alocação é que está errada para o material que recebe.

No endereçamento fixo, o sintoma nasce do dimensionamento. Cada posição é pensada para o maior estoque que o item já teve. Quando o item zera, a posição fica vazia. Quando o lote novo chega antes de o anterior acabar, ele não cabe.

No dinâmico mal regrado, o sintoma é o inverso. O mesmo material aparece em quatro ruas diferentes, e o abastecimento da linha vira uma volta pelo armazém inteiro. Há sempre alguém que “sabe onde está”.

Nos dois casos, quem opera acaba contornando a regra: guarda onde cabe e registra depois, quando registra. O desencontro entre endereço registrado e posição real já foi tratado aqui como sintoma de registro, na edição sobre linha parada por falta de material. A pergunta desta edição vem antes: por que a regra empurra o operador a contorná-la.

Por que a lógica de endereçamento do e-commerce falha no almoxarifado industrial?

A lógica do e-commerce foi desenhada para guardar unidades soltas e atender pedidos pequenos e imprevisíveis. O almoxarifado industrial movimenta paletes de lotes definidos, em estados diferentes, para um consumo que o plano de produção anuncia com dias de antecedência. São perguntas diferentes, e cada uma pede uma regra de endereçamento diferente.

São quatro diferenças concretas.

A primeira é a unidade que se movimenta. Grandes operações de e-commerce na Europa desmontam deliberadamente as cargas que recebem e espalham as unidades pelas estantes do armazém inteiro, segundo levantamento de Boysen, de Koster e Weidinger publicado no European Journal of Operational Research em 2019. A fábrica move palete. E, quando só se movimentam paletes completos, a alocação aleatória rende praticamente o mesmo que guardar na posição livre mais próxima, conforme a revisão de de Koster, Le-Duc e Roodbergen no mesmo periódico, em 2007. As duas fontes são europeias; o mecanismo não depende do país. ScienceDirectErasmus University Repository

A segunda é o lote. Espalhar a carga é espalhar o lote, e endereço compartilhado obriga alguém a escolher na separação qual lote sai, como discutido na edição sobre rastreabilidade de lote.

A terceira é o estado do material. A fábrica guarda matéria-prima, material em processo e produto acabado, e cada um passa por quarentena, liberação ou rejeição. A RDC nº 658/2022 da ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) mostra a lógica. Ela aceita um sistema no lugar da quarentena física, desde que ofereça segurança equivalente, mas exige locais segregados para materiais rejeitados, recolhidos ou devolvidos. A norma só obriga fabricantes de medicamentos; o raciocínio serve a qualquer fábrica. Sindusfarma

A quarta é o ritmo. O e-commerce aloca pela probabilidade de pedido. Na fábrica, o que sai amanhã já está na ordem de produção liberada hoje.

Somam-se as restrições físicas: a capacidade de carga de cada nível da estrutura e a incompatibilidade química. A incompatibilidade é informada na seção 7.2 da Ficha com Dados de Segurança, conforme a ABNT NBR 14725:2023. Essa edição da norma trocou o nome FISPQ por FDS, e muita operação ainda usa o nome antigo. Não há levantamento público brasileiro sobre quantas indústrias adotam cada modelo de endereçamento. ScribdLisam

O que decide o endereçamento em cada operação

E-commerce (venda ao consumidor) Almoxarifado industrial
Unidade que se movimenta Unidade solta, retirada de caixas desmontadas Palete completo ou fração controlada
O que a alocação procura Aproximar itens que tendem a sair no mesmo pedido Deixar o material perto de quem vai consumir, no estado certo
Quem dita a saída Pedido do consumidor, conhecido horas antes Plano de produção, conhecido dias antes
Lote Controlado quando o produto exige Precisa ficar íntegro no endereço sempre que houver rastreabilidade
Estados do material Disponível ou indisponível Quarentena, liberado, rejeitado, em processo
Restrições físicas Tamanho da unidade Carga por nível, incompatibilidade química, temperatura
Efeito de espalhar a carga Encurta o percurso da separação Quebra o lote e alonga o percurso
Regra que tende a servir Dinâmico, com unidades espalhadas Fixo por zona, dinâmico dentro da zona

Quanto custa um endereçamento que não combina com a operação?

O custo de um endereçamento inadequado chega à diretoria como falta de espaço. Na operação, ele tem quatro formas: movimentação dupla, separação que vira busca, material não liberado chegando à linha e, no fim, pedido de área nova para um problema que era de regra de alocação.

No fixo aplicado sem critério, cada posição é reservada mesmo quando o produto está em falta e dimensionada para o estoque máximo, o que dá ao modelo o pior aproveitamento de espaço entre as políticas estudadas, segundo a mesma revisão de 2007. O palete que chega sem lugar é guardado duas vezes, uma no provisório e outra no definitivo. O corredor ocupado desacelera todas as movimentações que passam por ali. Erasmus University Repository

No dinâmico sem regra de lote, separar um lote específico vira varredura. O FEFO (First Expired, First Out, ou primeiro que vence, primeiro que sai) passa a depender da memória de alguém.

Na quarentena mantida só no sistema, sem bloqueio de separação, nada impede que o palete não liberado siga para a linha.

E o custo mais caro não aparece como custo: é a ampliação aprovada para acomodar uma regra que ninguém revisou.

Como verificar se o endereçamento atual serve à operação?

Dois exercícios feitos com papel e caneta respondem. O primeiro mostra se o problema é espaço ou regra: contar, no mesmo momento, os paletes sem posição e as posições vazias reservadas. O segundo classifica cada categoria de material por cinco perguntas, que indicam se ela pede endereço fixo, dinâmico ou zona fixa com posição dinâmica.

Contagem simultânea. Em três momentos de uma semana (início de turno, pico de recebimento e véspera de uma produção grande), percorra o armazém e anote duas contagens na mesma volta:

  • paletes fora de posição;
  • posições vazias que a regra atual impede de usar.

A leitura é binária. Paletes sem lugar convivendo com posições vazias indicam regra de alocação errada. Paletes sem lugar sem nenhuma posição vazia indicam falta de espaço. Só o segundo caso justifica metro quadrado.

Classificação por categoria. Para cada família de material, responda:

  1. Movimenta palete completo ou fração?
  2. O lote precisa ficar íntegro no endereço?
  3. Por quantos estados o material passa, e algum exige lugar físico separado?
  4. A saída é anunciada pelo plano de produção com antecedência?
  5. Existe restrição de carga, de incompatibilidade química ou de temperatura?

Palete completo, sem restrição e com saída anunciada funciona bem no dinâmico. Lote que precisa ficar íntegro, estado que exige separação física ou restrição química pedem zona fixa, com posição dinâmica dentro dela. Fração pequena de consumo diário pede posição fixa no ponto de uso.

O que mudar antes de trocar a regra de endereçamento?

Há quatro caminhos, em ordem crescente de custo. Primeiro, escrever a regra de alocação por categoria. Depois, desenhar zonas fixas por estado e restrição. Em seguida, nomear quem decide as exceções. Só então levar a regra para um sistema que a aplique no momento da guarda.

Processo. Escreva, para cada família de material, onde ela pode e onde não pode ser guardada. Decida se a quarentena é física ou por registro; se for por registro, com bloqueio de separação. Defina o endereço de retorno do palete fracionado.

Layout. Crie zonas fixas para rejeitados, químicos incompatíveis e ponto de uso da linha, com alocação dinâmica dentro de cada zona. Reserve posições-pulmão junto ao recebimento, para que o corredor deixe de ser o provisório. Deixe a capacidade de carga visível em cada nível. A norma brasileira de porta-paletes em vigor é a ABNT NBR 17150, publicada em março de 2024, que cancelou e substituiu a NBR 15524; placas e laudos antigos ainda citam a anterior. Sisartex

Gente. Nomeie um dono da regra de alocação. É ele quem aprova as exceções e revisa as zonas quando o mix muda.

Sistema. Um WMS (Warehouse Management System, ou sistema de gestão de armazém) aplica a regra por estado, lote e restrição no momento da guarda e bloqueia a separação do que não foi liberado. A edição sobre ERP e WMS mostrou que o endereço vem antes do software. Aqui, a regra de alocação vem antes do endereço. Dinâmico sem registro confiável vira memória de uma pessoa; fixo sem revisão vira galpão cheio de buracos reservados.

O que isso significa para a diretoria

Pedido de área nova costuma chegar com uma justificativa visível: paletes no corredor. Antes de aprovar ampliação de galpão ou armazém externo, vale pedir o resultado da contagem simultânea descrita acima. Ela separa quatro custos que chegam misturados:

  • o custo de oportunidade do espaço reservado e vazio;
  • as horas gastas guardando o mesmo palete duas vezes;
  • o risco de qualidade de material não liberado chegar à linha;
  • o risco de segurança de carga alocada sem respeitar o limite de cada nível.

A contagem custa uma semana e uma prancheta. Ela serve inclusive para confirmar que falta espaço de fato.

Perguntas frequentes

Endereçamento dinâmico exige WMS?
Não exige um software específico, mas exige registro confiável de cada posição no momento da guarda. Sem esse registro, o dinâmico vira memória de quem guardou. Em operações pequenas, planilha e disciplina sustentam o modelo por um tempo. O limite aparece quando o volume diário de guardas supera a capacidade de alguém conferir o que foi registrado.

Dá para usar endereçamento fixo e dinâmico no mesmo armazém?
Sim. Na indústria, esse costuma ser o arranjo que sobra depois de aplicar os critérios de decisão: zonas fixas definidas por estado do material, restrição química ou ponto de uso, com posições dinâmicas dentro de cada zona. O erro mais comum é escolher um único modelo para o armazém inteiro.

A curva ABC serve para definir o endereçamento de matéria-prima?
Serve como ponto de partida, mas mede o passado. Para matéria-prima, o plano de produção antecipa o consumo das próximas semanas com mais precisão que o giro histórico. Um item de curva C pode ser o mais movimentado da semana se a ordem que o consome foi liberada. A curva ABC funciona melhor no produto acabado de distribuidor.

A quarentena pode existir só no sistema, sem área separada?
Pode, desde que o sistema impeça a separação do material não liberado. Na fabricação de medicamentos, a RDC nº 658/2022 da ANVISA admite essa substituição quando ela oferece segurança equivalente à separação física. Fora dos setores regulados, é decisão da empresa. O teste é direto: tente separar um palete em quarentena e veja se algo impede.


Se o seu armazém tem paletes sem lugar e lugares sem palete ao mesmo tempo, vale medir se o problema é espaço ou regra de alocação. Me chame no WhatsApp e a gente faz essa contagem junto. São 30 minutos, e ela serve inclusive para concluir que a regra está certa e falta espaço mesmo.

— Harrison Silva, Consultor de Soluções Corporativas na Softdata

Harrison Silva é Consultor de Soluções Corporativas na Softdata Hub de Tecnologia, onde acompanha projetos de gestão de armazém e estoque em indústrias e distribuidores de médio porte, em setores como plásticos, moveleiro, alimentos e metalmecânica.

Perfil de Harrison Silva no LinkedIn

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